TAMARINDOS E FLAMBOYANTS
Para Ana Carneiro e família!
"Mas quando chegaram ali, não havia nada. Árvores. Um amontoado, emaranhado e embolado de árvores, interminável, insignificante. Um rio vagaroso coroado e sufocado por árvores, algumas tocas de creechies escondidas entre a vegetação, alguns veados-vermelhos, macacos peludos, pássaros. E árvores. Raízes, caules, galhos, ramos, folhas acima da cabeça, sob os pés, sobre o rosto e os olhos, folhas que não acabavam nunca em árvores que não acabam nunca." Floresta é o nome do mundo. Ursula K. Le Guin.
Minha escrita é de ímpeto, absolutamente sem técnica, profundamente anarquista e anti-gramatical, erro muito o português, a pontuação e as ideias. Tenho estudo, tenho jeito mas tenho também um leve desânimo de rimar o formal. O que não me impede de inventar um estilo ou me conformar com o erro. E até aprender um pouco mais das regras. Escrever é necessidade: A Necessidade. Nome do meu primeiro blog.
O ímpeto dessa vez foi a vizinha que queria comprar mudinhas de Flamboyant. Eu nunca vendi uma muda, sempre dou. Mas dessa vez achei bom fazer negócio. Ando dura mesmo. Ia cobrar um valor simbólico, dez reais, sei lá! Quanto vale uma muda de Flamboyant? Quanto vale o meu trabalho de fazer nascer árvores?
Fui no meu viveiro ver a situação delas, porque eu lembrava que algumas a formiga cortadeira tinha torado. Vai nascer de novo, mas não ia vender uma muda depenada, começar um empreendimento assim. Até porque eu sei a qualidade do que consigo produzir. As mudinhas de Flamboyant estavam do lado das mudinhas de Tamarindo.
Os Tamarindos: Quando voltei no Ceará pela primeira vez depois de anos de Bahia com uma Pandemia no meio, passei um tempo em Icó, três poucos dias, fui ver Ana e sua família. Quando cheguei Ana me levou para ver os Tamarindos do centro histórico. Icó para quem não conhece está na região do Cariri, meio sertão, meio agreste, muito Ceará, meio Rio Grande do Norte, meio Pernambuco, meio do caminho. Eu amo Icó, amo esse nome de cidade. Vem dos povos originários dali. Pois chegando perto dos Tamarindos a surpresa: Só havia um de pé. O outro tinha sido cortado. Parece que a prefeitura cortou antes que caísse. A imagem é forte da árvore cortada.
Adoro as histórias desses Tamarindos porque revelam a brabeza de uma mulher. Antes era uma fazenda e ali naquela sombra descansava os passantes, os cavalos, os cabritos, os dias de sol. E mesmo assim sempre tentavam tirar os tamarindos dali e a dona-moça-senhora-de-terra dizia NÃO. Os Tamarindos atravessaram gerações, árvores são sobre isso, e se incorporaram a cidade, hoje passa uma rua e sobrevivem, menos um. Eu colhi as sementes desse que sobrou. Cheguei na Bahia e fiz as mudas. Brotaram todas. Os meus Tamarindo do Icó. Paixão.
Pois então que coloquei os Flamboyant do lado dos Tamarindos. A formiga comeu os dois e agora só tem os galhos e dessa forma eu não consigo identificar quem é qual, quem é quem. E dessa forma eu não consigo vender Tamarindos por Flamboyants e vive e versa.
Ah, os Flamboyants foram sementes que meu pai trouxe de Goiânia. Mas essa é outra história: Cortejar meu Cerrado.
Hoje replantei tudo em vasos maiores e tirei de perto das formigas para ver se rebrotam. Vai dá certo, eu sei, em cearense. Agora é aquietar a agonia do tempo e esperar renascer. Não tenho vergonha de abraçar árvore. De subir, de catar suas sementes, de comer seus frutos no pé, de pé. Esse aí é o Tamarindo cortado de Icó. Que dó!