Ser casa 


"UM BURAQUINHO DÁGUA MATA MINHA SEDE, UMA PALMEIRA SÓ ME DÁ MINHA CASA. CASINHA QUE EU FIZ, PEQUENA - Ô GENTE! - PARA O SERENO REMOLHAR."   Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas


Ser rural

Para fazer da experiência um caminho de realidade e ficção através da escrita e do audiovisual começo esse blog com a intenção acanhada de narrar uma jornada de terra, já sabendo da incompletude que há nisso, pois há inúmeras terras, uma pluralidade de mundos e diversas formas de narrar.


Minutos antes de pegar a estrada já com as malas no carro e o coração aguado, Livinha me deu alguns presentes, entre eles a possibilidade de escutar o Tarot Motherpeace, seria um jeito de levar uma ideia, um pensamento pra viagem que duraria quatro dias, e também um jeito de levar Livinha comigo, amiga de anos, companheira de vida, de cerrado natal, de sotaque, de filmes, estudos e além. Partilho aqui com vocês uma foto do nosso jogo feito debaixo do pé de romã, fruta essa que trouxe comigo e deixei secar as cascas, pra quando acontecer da garganta inflamar fazer gargarejo. E a garganta inflamou sim e o remédio já estava feito. Com os anos a gente se adianta. 

No jogo veio uma carta que chama Sacerdotisa de Ouros, o lindo desse tarot é a proximidade que ele nos coloca da terra e da sua fortaleza feminista. Na carta há uma mulher em posição de yoga, ela está em meio a natureza e cercada pela agricultura. É o nosso plano! O entendimento desse jogo me acompanha já nesses quase dois meses que saí de Fortaleza em direção a Bahia. E aqui abro espaço para narrar o porquê dessa mudança.


Já muito nova um bicho me picou, estava sentada na sala de aula e tinha 10 anos, escutava minha professora Josiana. Ela tirava todas as coisas e objetos de sua bolsa para nos dizer e influenciar que não jogava lixo no chão. Ela dizia que jogava na bolsa e quando chegava em casa jogava no lixo. Mostrava todo lixo que acumulou na bolsa. Aquilo me impactou muito, primeiro por conta da curiosidade que era ver tudo o que ela carregava ali, ela foi tirando documentos, papeis, uma toalhinha, esmalte, balinhas, copo descartável usado e alguns pequenos lixos que não me vem a memória. Mas o impacto daquela ação eu chamo de picada de consciência ecológica. Ela me ensinou naquele dia, naquele momento… sobre o lixo, sobre a responsabilidade que é sujar o mundo. Hoje esse pequeno senso cresceu muito e se aprofundou também, virou sonho grande em companhia de Oskar: Reflorestar! Reflorestar até o rabo! Plantar comida sem agrotóxico. Ter casa no mato pra receber os amigos. Formar uma residência artística, trazer o audiovisual, pensar outros caminhos de realização. Ser rural! 


Há mais ou menos dois anos decidimos mudar do centro urbano para a zona rural, economizamos um dinheiro (seguidos de todos privilégios que há nisso) para comprar um sítio, uma pequena propriedade rural, nosso objetivo era (é) associar agricultura e reflorestamento, viver ecologia. E a conjuntura geopolítica do Brasil e do mundo fazia nosso desejo crescer. O golpe no Brasil e ascensão de governo de ultra-direita de Bolsonaro, abertamente contra as questões ambientais, acelerou nosso compromisso com a mudança. De alguma forma a vontade de fazer frente a 382 novos agrotóxicos liberados para a mesa brasileira; comer sem veneno; queimada da Amazônia e Cerrado; derramamento de petróleo na costa nordestina; bancada ruralista etc, veio associada a um estudo de soberania alimentar e autonomia perante ao sistema capitalista. 


Oskar tem uma formação política ideológica muito enraizada de esquerda, foi filiado ao partido comunista alemão e traz consigo uma crítica (instaurada na ação) poderosa ao capital. A diferença que queríamos para nós dois cresceu quando tivemos a ideia de realizar um crowdfunding de reflorestamento, com um detalhe importante, não queríamos dinheiro dos amigos brasileiros interessados nessa ideia, pois nossa compreensão de mundo acontece também no entendimento da contra-colonização: “Na minha vida, fiz muito discurso político e falei com muito chefe político do mundo todo. É lá fora que temos que controlar o problema. Porque é o povo de lá que vem com dinheiro para investir aqui, para construir barragens, coisas grandes.” Davi Kopenawa em entrevista ao jornal El País. Então foi em euros que fizemos a vaquinha, utilizando do privilegio de nascença de Oskar, metade alemão, metade brasileiro, jogamos a responsabilidade para onde ela nunca deveria ter saído: a Europa. Se a Europa vive um estado de bem estar imutável é a custa exploração do Sul Global, dos processos de colonização, do extrativismo desenvolvimentista, que nunca pararam de acontecer. Fizemos essa campanha com intuito de arrecadar dinheiro para reflorestar 10 hectares de Mata Atlântica. Mudamos para Bahia para comprar essa terra devastada e a partir daí dar início a plantação de árvores nativas associadas a uma prática de agricultura sustentável. 


No entanto, num país que nunca realizou a reforma agrária, que criminaliza os movimentos rurais, que tem no latifúndio a medida da terra, nos revela o quão difícil é encontrar áreas menores para o nosso projeto de reflorestamento. Já faz quase um ano que estamos nessa busca e não me sai da cabeça a fatalidade que é a falta da reforma, da demarcação de terra dos povos originários e quilombolas, dos 500 anos de gula que assola desde a invasão. A jornada tem sido complexa, saudade imensa das amizades cearenses, o corpo ainda se acostumando com a lida no campo, a dificuldade de comprar uma terra titulada e toda certinha perante a legislação, as incontáveis vezes de hesitação perante os desejos, a realidade do sustento se impondo com toda força. 


Polly Di 


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