Armadilha

Se habito estar perto dos excessos é pra ter os ouvidos bem dispostos, porque tudo o que é dito tem um perigo, daquele que a gente encontra na boca de Riobaldo, do dizer “Viver é um descuido prosseguido”. Sai do fundo da boca para deixar o tempo agudo e polido… as palavras ditas na Bahia:

“Onde tá o homem tá o risco”

Além da imprevisibilidade que se sugere tem ainda o âmbito da imaginação, amplamente vivo e já é risco.

Foto de uma armadilha velha que Oskar encontrou na nossa terra. Caça.

O homem arrisca a Humanidade. Mas não quero escrever com essas palavras. A língua, os verbos, o futuro, os nomes das mulheres… Gostaria de inaugurar o mundo como uma bruxa a praguejar.

Toda bruxa pragueja:

Deitar a mão na terra e correr o risco de colher.

06/09/2020

Analógica. 35mm. Minolta X-500.

Flores de longa duração e chegando a permanecer na planta até 8 semanas. Herbácea de raiz fibrosa e caule ereto, pouco ramoso, que atinge até 60 cm de altura. Apresenta inflorescência.

A veludo

Inevitavelmente o que passo é também mudança de perspectiva. E essa escrita é a pressa do não faltar memória. E se já gero memória enquanto presente... desejo te escrever essa história da planta:

Que chama Veludo.
Que chama muita atenção pela vibração de cor e textura.
Que chama se você chega bem perto pra ver um cérebro em suas formas. 

E logo essas referências que ventam na natureza vão revolucionando sutilmente o que é aventura, o que é trabalho, o que é educação, o que é reforma agrária ????

Revolução é não romper com o sonho e com o pão. Estou absolutamente enveludada pelo obscuro dessa mudança cidade-campo, porque é esse cósmico do fim do mundo que resta misterioso o suficiente para ainda fabular.

Tempo suficiente para inventar. Tempo suficiente para ver a demora da terra. Tempo suficiente. Quem tem?

Deve ser por isso que plantamos flores.

Nas fotos minha amiga Kelly Fatinha e veludos. Fizemos um álbum de fotos juntas. A veludo era esse toque crista-de-galo. Kelly me disse frases que carrego fundo: "Devo ser muito da natureza para comer cacau qualquer hora e não passar mal."

E aqui é pra ser muito da natureza!

22/08/2020

Bouganvile e Galinhas

Como sendo nativa da Mata Atlântica brasileira a flor vai se chamar em francês?! Ou ainda, na pergunta de Heitor Augusto, numa dessa lives de vida: “Como você se apropria de um processo histórico?”

E aqui é de uma abundância, como o coco de beira da praia. Vi um com todos possíveis cabíveis. Era coco-da-baía naquele coqueiro... todos eles. Abundância é assombro por não esperar tanto de um coqueiro, de um país. O contrário disso é banal.

Bouganvile Banal. Que se esconde mulher pra poder viajar o mundo. 1767, foi o mais tarde que consegui chegar. Que faz lista de plantas medicinais. Herbolária, uma iniciada na tradição oral das propriedades curativas de plantas. Feitiço tardio. Bougainvillea brasiliensis.

Quem acha a planta dá o nome: Epistemicídio! A taxonomia pra de novo por "ordem" na Natureza. Gosto da nomeação óbvia que se faz do mundo. Mussununga vai se chamar a nossa terra, por se tratar mesmo de uma mussununga. Tupi-guarani: terra fofa. Povos originários nomeiam a vida. 

A gente plantamos!

Mas meu futuro é chegar nas galinhas. Que estão por toda parte e são loucas, porque soltas.

29/07/2020 (pandemia chegou no Retiro)

P.S.: Existe um bouganvile especial na minha vida, aquele da separação que foi parar na Zelva. Eu observava que ele sempre caia as folhas determinado período do ano e pensava que estava morto, mas depois ele rebrotava, vivão. Pois descobri que em terras agrestes bouganvile são decídua. Caem folhas.  

Engaiolada (22.07.2020)


Reservo-me a ousadia da ficção. Da primeira pessoa. Chamo aquela ideia de que não é literatura por ser íntima. Chamo para desconsiderá-la. Obedeço a magia que intui seivas com a lua. Como por exemplo os trocadilhos sertões. Lua Nova. Pneu do carro furado na estrada de noite escura com chuva. Muitas mudas no porta-mala. Agricultura regenerativa.


Peço ao estado de poesia possibilidade de chegar numa escrita encantada sobre a cantoria de pássaros. Sem som. Reservo-me à “liberdade é fazer tudo errado”, como disse minha amiga Ju. Quero mostrar fotos. Uma colagem amadora e subjetiva. Engaiolada.

Cobro-me dominar o linguajar acadêmico. Aquele das palavras e estudo. Especismo. Dizer ser entender que não hierarquizemos nossa relação com as espécies. Todas elas. Grande assim o leque. Quando expandi essa ideia enfrentei em mim a liberdade.

Meu pai, meu avô tinham pássaros em gaiolas. Uns que pendiam sempre para o amarelo. Talvez canários? Canarinhos? Livinha ganhou de presente uma piriquita. Amarela. Chamou-a Pamonhinha.Vai criar solta. Desejei recentemente ter um papagaio. Atiçada pela agudeza da inteligência do bicho. Preenchida com a troca. Um bicho de pena tão perto. Fala. Textura fora do pêlo. De susto a galinha sempre se joga pra morte. O brinco que me fiz de galinha-da-angola. Pra descobrir que poderia quem sabe estar despistando a morte. Ainda se me permite com experiência, a coleção de penas, mania de catar o que se despende leve da terra.

E partindo agora do que observei do homem e o pássaro. Passa por essa história que me despertou decisão. Houve uma tentativa de assassinato perto de nós: acerto de contas de pássaros. Fez-se tocaia. Tocaia Grande nunca li e me observo como alerta. Vale dinheiro obviamente.

Quero tanto trazer fôlego ao que escrevo. E pra cantar se expande fôlego? Nunca cantei, sou suspendida. Pássaro me respira. A animação mitológica em ÍCARO. Eu grito de susto. Tô aprendendo a sonhar voando. O céu é o maior precipício que conheço.

Mas todas manhãs os vejo desfilar com suas gaiolas e passeando como troféus, em riste. Vai pegar um sol? Vai cantar? Vai botar ele mais perto do céu? O Pássaro.

Indefensáve!!

E o que noto é toda essa dança que se faz com a natureza. Tem esse livro “O bem viver” de Alberto Acosta. De onde leio procurando responder como desfaço a separação . E as arapucas que tem outro nome.  A arapuca da educação determinista. Aqui quase rezo. Daí-me aceitar a liberdade sabendo problematizá-la... criatura de todo conflito. Desenvolvimento destrutivista. O peito estufado para ser anti-capitalista feito cínica em causa própria. Sim, pelo fim do mundo.

As vítimas maritacas em Ilhéus perdendo sua árvore enquanto perdemos a alma. Morre-se de exaustão em terra colonizada.

Uma imagem que desejo fazer: todos eles com seus pássaros, muitos e juntos na estrada de chão. A infinidade mil dessa ideia. Como quem coleciona a curiosidade. Eles guardam pássaros em gaiolas.


35mm. Minolta X-500. Filme vencido. Casa de tijolinhos da família de Vovô, pedreiro e nosso vizinho em Água-fria. Toda casa tem um pássaro preso.

É uma outra linguagem. A linguagem íntima das gaiolas. Do pássaro como animal domesticado. E nunca será. Da beleza que é se aproximar do céu enquanto pluma.


Bruxa Vegetal

Meus sonhos mudaram significativamente. Sempre sonhei muito. Mas existia um autocentramento que me desanimava. Quando cheguei nessa parte de A queda do céu:

"Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos."

Pedi a mim mesma poder ter sonhos mais vulgares, ir longe, menos egoícos, sair do meu corpo, dos meus dramas, das premonições baratas e inférteis. Correr com cobra, ter pés de cobra. Adentrar mais na terra. Ter poderes.

Hoje sonhei com o lugar que a bucha vegetal poderia estar. A bucha trepa. E no sonho eu construía uma estrutura para ela subir. Um estrutura que se transformava num portal. Portal de bucha. De bruxa.

As sementes que tenho comigo e que já estão germinando eu trouxe de Icó-Ceará. Catei na margem de um córrego que passa no fundo da rua de Ana Carneiro. Amiga, artista, professora de literatura, amante de Clarice...e que me ensina muito sobre emprestar o corpo à ciência e sonhar com vigor.

A bucha vegetal é a planta que mais me faz refletir sobre o doméstico e o estar doméstico. Lavar louça todo dia antes e durante a pandemia. A vida doméstica com as plantas nos obriga a imaginar o passado e trazer a tona alguns atavismos. Nossas avós e avôs plantavam buchas. Tenho tido um desconforto tremendo de usar essas buchas que compramos nos supermercado. Tenho tido um desconforto tremendo de supermercados. Meu maior pesadelo é me preparar para ir ao supermercado. Quero plantar bucha cada vez mais. Saber que tudo se aproveita. E que até bucha se planta. Fazer essa aliança com a natureza. Desfazendo a separação construindo uma racionalidade ambiental capaz de imaginar um futuro que nos territorializa sem violentar. Devir Bruxa Vegetal. Planta que dá!


13

julho

2020




* O desenho é uma litografia que compõe o livro A Flora Brasiliensis de 1840 e escrito por naturalistas alemães e austríacos que estiveram aqui a pedido da "Coroa" para catalogar nossa vegetação. São inúmeros volumes. E foram todos digitalizados pelo Instituto de Biologia da UNICAMP. E estão disponíveis no site: http://florabrasiliensis.cria.org.br/

Cosmofobia

Agrofloresta é um tipo de agricultura de precisão. E eu estou internalizando e habituando isso aos poucos. Pra fazer nascer é preciso plantar na lua certa, no ciclo certo, na chuva certa, no tempo certo. Há um rigor nisso. E eu estou ainda lidando com minha preguiça ancestral de acordar no tempo do sol. Jogo sementes ao léu. Já ponhei algumas sementes ali outras acula... e tenho sentido uma cobrança forte de que ainda é pouco e a terra é grande. E a chuva passa e não vai ter farinha. Precisão. De precisar comer?

Sou colecionadora de sementes e coisas que o chão dá. Cato semente no dente. Minha boca vira pé. Meu pé vira mão. Raiz forte de cuidado. Semente, concha, raiz. Mas sinto que ainda preciso pisar mais descalça. Cosmofobia. Medo de formiga ardida. Cosmofobia foi um termo que aprendi com Mestre Bispo, referência de fôlego para a curadoria de uma Mostra de Cinema que tenho gestado já alguns anos (outro papo, outro texto). A história vem disso que separa a humanidade (humusidade) da terra-natureza, que desterritorializa o ser humano e o afasta da terra para dominá-lo e engendrar medo-colonial.  

               "Desde que a espada e a cruz desembarcaram em terras americanas, a Conquista europeia castigou a adoração da Natureza, que era pecado ou idolatria, com penas de açoite, forca ou fogo. A comunhão entre Natureza e a gente, costume pagão, foi abolida em nome de Deus e depois em nome da civilização. Em toda América, e no mundo, seguimos sofrendo as consequências desse divórcio obrigatório." Eduardo Galeano

Os dias dessa transição cidade-campo são dias que enfrento meu medo de terra, um paradoxo, que decido não me separar mais. E tomo como prática a semente que nasce. Plantei pouquinho: hibisco, veludo, moringa, coentro, clitória, manjericão, bucha vegetal. Tudo de semente. Brotou!

A usurpação e a corrida desenfreada pelos últimos recursos (que não são recursos) da Terra. E assim essa acumulação não cumprirá futuros. Mas há de se enfrentar o medo da terra. Primeiro passo para imaginar uma indicação de bem-viver. Primeiro passo para habitar a terra sem subjugá-la. Meu primeiro passo para uma ética do fim do mundo. Pisar leve.

E pra formiga ardida alguma dica? Deixa que pica! Sai correndo. Lava pés. 

07/07/2020 lua cheia e aniversário da Drica.

Dedico esse textinho a minha amiga e cineasta, Isa Vitório, que me apresentou Mestre Bispo a partir de uma transcrição de uma fala dele para o Encontro de Estudantes Quilombolas, em Goiás. Foda!

17/06/2020 (ainda pandemia)

Capricho!

Estamos levantando a casa. Uma casa se levanta do chão. Se ergue verticalmente em direção ao ar. Alto. Foram tantas plantas (planos) desenhadas. Pontos de vistas contrários sendo colocados em defesas apaixonadas. Eu pensando dentro e Oskar pensando fora e vice-versa. Um pouco de dor um pouco de sorriso. E o dinheiro sempre acabando. E a casa se ergue. E cada vez me convenço de que pronta talvez ela nunca fique. Porque bonito são as arestas, a incompletude, a mudança, o movimento.
Deixamos janelas que podem se transformar em portas no futuro, do futuro. Deixamos egos. Deixamos espaços para quem chegar poder construir sua própria casa também. Deixamos escolhas romantizadas. E uma delas tem a ver com a Bioconstrução. A casa é metade bioconstruída e outra metade não. Mas todo seu funcionamento é sustentável (ô palavra cansada). Para nossa história, mais do que ter uma casa totalmente bio, seria importante que seu funcionamento fosse coerente: o sistema de esgoto, a utilização da água e no porvir, a parte elétrica… que não agridem ou poluem a terra.
Nossa transição é desurbanizar o intelecto. No corpo acontece mais rápido. O corpo é sempre o primeiro a dizer. O meu diz: acordar bem cedo, usar as mãos, regrar o tempo de telenizações… guiando o olhar para o horizonte.
Escolhemos construir a casa num espaço da terra em que o recuo é ver o Parque do Conduru. Lá longe o acúmulo biodiverso de Mata Atlântica. Aqui dentro árvores se nascendo. Me nascendo. Me cas(ando).  

E agora deduzo que na roça a lida nunca acaba. A casa nunca acaba. Construir é inventar.

Escute.

Era uma casa muito engraçada. Era a própria mata. 

Chocolate                             

"Um silêncio de fim do mundo (...) naquelas sombras carinhosas dos cacauais, onde o sol não penetrava, tudo estava certo. A gente vivia quase fora do mundo e a nossa miséria não interessava a ninguém." Jorge Amado.*

Essa é uma roça de cacau. Aqui no sul da Bahia a principal atividade, além do turismo, é o cacau. Dinossauro até hoje. O cacau é plantado num sistema conhecido como Cabruca. Eu amo esse nome: cAbRuCa!

A cabruca mistura o cacau com outras árvores e é uma forma tradicional de plantar. Um consórcio em que todas se auxiliam. Árvores de alto porte e copa pouco densa criam um ambiente de assombramento. Cacau bom é criado na entreluz. A luz na roça de cacau é mágica. É linda de filmar. A cabruca é o germe da agrofloresta. Se mistura: cacau, cajá, dendê, jaca, jacarandá, vinhático .... tudo come-se, tudo rende-se, madeira e comida. E assim temos mais resiliência ecológica.

Quando mudamos pra cá eu li a trilogia do Jorge Amado sobre o Sul da Bahia. São seus primeiros livros: O país do carnaval. Cacau. Suor. Ainda numa pegada bem panfletária e comunista. Comunismo entrando no Brasil. São romances proletários e altivos. Esquerda branca. Lidam com a escravidão tardia nas plantações de cacau. Fazem um salto grosseiro da escravidão ao proletariado. Gostei menos de Jorge Amado, no entanto, gostei mais da Bahia.

"Os frutos amarelos pendiam das árvores como lâmpadas antigas. Maravilhosa mistura de cor que tornava tudo belo e irreal."

"No sul da Bahia cacau é o o único nome que soa bem."

"A noite nas fazendas é triste, sombria, dolorosa. É a noite que a gente pensa."

"O cacau era o grande senhor a quem até o coronel temia."

*Trechos do livro Cacau, de Jorge Amado, 1933.

**Fotos analógicas. Minolta X-500-35mm

03/06/2020 Já cheguei de volta na Bahia e ainda é pandemia.

Fotossíntese

A primeira árvore que plantamos na nossa terrinha: Pau-Brasil. Restituição.        


Fixamos. Conseguimos comprar a terra. Totalmente legalizada. Situação rara na Bahia. Aqui é zona rural do município de Ilhéus. Sul da Bahia. Região dos Tupinambás. Costa do cacau. Jorge Amado. O povoado se chama Retiro. Temos vizinhos! A terra tem 7 hectares, totalmente devastados, era pasto. Fixamos. Aqui começa o Resgate climático feito à mão. Plantamos mato. Plantamos Mata Atlântica. Plantamos fotossíntese e a grande responsável pela possibilidade do respiro: A árvore. A planta.

"Foi através da fotossíntese que nossa atmosfera passou a ter mais oxigênio; é ainda graças às plantas e a sua vida que os organismos animais podem produzir a energia necessária a sua sobrevivência. É por e através delas que nosso planeta produz sua atmosfera e faz respirar os seres que cobrem sua pele. A vida das plantas é uma cosmogonia em ato, a gênese constante de nosso cosmos." (A vida das plantas - uma metáfora da mistura, de Emanuele Coccia)

                                                                               

Notícias de terra, do mundo de lá: "O pedido que se pensou, o destino que se cumpriu" (Amor de índio, Beto Guedes)

E agora estou com uma impaciência verbal de narrar. Mas me proponho. Quero ler isso no futuro. O tempo tenho deixado de contar? Porque tem sido dolorido. Porque está mesmo ardendo essa transição interna e planetária. A visão simplista e bifurcada do mundo que já acabou. Da ruptura que nos distancia do que entendemos ser natureza. E porque realmente veio dor no corpo e adoeci. Doeu de doente.

Antes da Terra cair de quarentena... tombei primeiro. Foram 13 dias de internação. Obrigada SUS!  Quilos perdidos e magreza terrível. Tia Amância se deslocando para Bahia e me salvar. Anja! Oskar resolvendo tudo enquanto tudo não se resolvia em mim. Voltei para Goiânia pra continuar o tratamento. Pow! Agora presa aqui. A Pandemia me fixou no Cerrado. Terra mais velha do mundo. Bioma mais antigo. Onde nasci é terra-velha. A doença me trouxe minha mãe. E tratei de estudar o Mito de Orestes. Aquele que rompe com as raízes onde precisa ser rompido. Onde nasci estou chatiada. Ontem queimei a mão. Vulcão é minha mais nova obsessão. Dois dias atrás raspei o cabelo. Quis ter a lua cheia na cabeça. E ainda insisto que não conto o tempo. Não tenho ousadia de me perguntar o que vim resolver no Cerrado. É luto! Sei ser corajosa com meus tombos.            

BORDADO DO LEO, GRANDE AMIGO-IRMÃO, QUE EM TEMPO DE CORONA TEM BORDADO IMAGINAÇÕES. LEO PERGUNTOU O QUE IMAGINÁVAMOS PARA O MUNDO PÓS-CORONA. EU, NUM AFÃ RESPONDI: UM MUNDO CHEIO DE BANANEIRAS. LEO BORDOU. CORAÇÕES DE BANANA.


Escolhemos Bahia, mas ainda vivo o peso de ter deixado Ceará. Isso ainda dói. Fiquei pensando se me despedi com honestidade. Se soube encerrar esse ciclo. Provavelmente não. Já que dói. E tento me responsabilizar. É escolha, e escolho todo dia ir embora do Ceará sem deixar o Ceará ir embora de mim. Sabedoria e agradecimento da vida que tenho na Terra do Sol. E é privilégio poder escolher onde colher, onde plantar, onde morar, onde reflorestar, onde viver, onde receber amigos, onde repovoar o mundo de árvores. BAHIA, o começo do fim do sem fim. E já estamos na nossa terra. 
  

O Bem viver. Em Kíchwa: Sumak Kawsay. 
O começo.


09/04/2020 presa em Goiás com passagem de volta pra Bahia... mas sabe-se quando.

Tomate





Quando nos mudamos pra Bahia trouxemos na mala umas sementinhas especiais de tomate. Sementes de tomate orgânico. As tratei como tesouro. O tomate é um dos alimentos que a agricultura convencional mais bota veneno. Um tomate hoje no Brasil é uma pequena bomba de veneno. A porcentagem chega a 16,3%. Gosto muito de tomate. Tomate na salada. Tomate no molho. Tomate com tomate. Não entendo muito bem porque a Bela Gil condena, parece que o tomate é tóxico. Demônio! Mas eu, ainda, não condeno o tomate não. Eu como. E como o com veneno mesmo, infelizmente. Você sabe quanto custa o tomate orgânico na sua região? Você frequenta as feiras do MST? 



Acontece que, antes mesmo de nos mudar para o sítio (que já tem nome, que ainda não encontramos, mas isso fica pra outra postagem) plantamos as sementinhas especiais de tomate. Resolvemos plantá-las num balde mesmo. Loucura, ansiedade, tesão. Bora logo plantar esses tomates pra comer logo e também pra multiplicar as sementes. E nesse meio tempo de procura da terra já mudamos de casa três vezes. E nessas três vezes os baldes de tomate nos acompanham. E é muito engraçado porque andamos com eles. Lá vai os do tomate. Até que… nasceu. E é tão saboroso. Tô que não me aguento de feliz. Isso de botar a semente na terra e ver crescer a planta, o fruto... é um absurdo. Mexe profundo com a gente! 


Mexe porque é o tempo se revelando ali. Plantar é acudir em si o tempo da terra. É estar na observância. Não alçar protagonismo. Silêncio, nasceu um tomate sem veneno. 


Receita do preparo da terra: Pegamos terra preta debaixo de uma jaqueira e acrescentamos cupinzeiro velho triturado e calcário.

A semelhança é o verde

Já catei semente de falso pau-brasil na praça do José Bonifácio em Fortaleza. Catei chorando escutando no foninho Belchior. Uma única música no repeat. Catei até encher uma garrafa de cajuína. Até conseguir acalmar o choro. Até não aguentar mais a música. Nesse misto terapêutico que foi colher sementes de um vermelho profundo, intenso e falso… parecia recolher o coração esparramado, doído de verdade. Cura. Muitas de milhares de centenas de sementes que estão guardadas nessa garrafa que decora meu quarto na casa de minha mãe. Estão lá. Longe de mim. Mas continuo passando por todos falsos paus-brasóis e coletando suas sementes. 


Quando eu via um falso pau-brasil eu sempre queria ver um verdadeiro. 



Queria a comparação científica. Ver os detalhes do por quê. Queria ver as semelhanças. O falso tão banal. O verdadeiro tão extinto. 


Um dia mudei de casa em Fortaleza. A casa nova tinha um pé de árvore. Era o verdadeiro pau-brasil. Fiquei obcecada. Claro! Todo dia de manhã e antes de qualquer coisa ia na árvore. Ia ver. Ver simplesmente. Observar seus ciclos. Botava flor amarela. Cheiro de jasmim. Botava sementes numa vagem com espinhos. Estudava. Senti que o verdadeiro me causava frisson. Não acreditava ser possível um pau-brasil de verdade. Pau-Brasil no Ceará?


Depois mudei para Bahia. Sul da Bahia. Zona Rural. Final do que resta de Mata Atlântica no mundo. E aqui eu vi muitos verdadeiros paus-brasóles. Surtei e aprendi a coletar suas sementes. Elas fazem ploc! A entender seus ciclos. Sua casca solta vermelho. Vermelho intenso como as sementes do falso. Tinta. Conheci árvores do verdadeiro que têm a minha idade e pra mais. Emocionada com abundância. Ganhei mudas. Achei sementes. Fui plantando o verdadeiro. Vale mais. O falso vale menos. Vale lágrimas. Vale artesanato. Que conta é essa?

Um dia cheguei nessa terra. Fim de linha. Depois dela não há acesso. Fim de linha. A última terra antes da terra. Andando logo procuro sombra. Fui lá debaixo das árvores. Quando chego perto o susto. Era um pau-brasil verdadeiro plantando do lado de um falso. Um sonho realizado. Comparei tudo. Até o cheiro. As semelhanças são as folhas. A semelhança é o verde. 


Ali na foto do lado esquerdo o verdadeiro e do lado direito o falso. 


20/01/2020    


Pós-post: tive a honra de uma interlocução aguda com Clébson Francisco após escrever "A semelhança é o verde". Clébson escreveu "A semelhança é o vermelho-terroso", e assim trocamos uma carta capricorniana sobre o extrativismo colonial do pau-brasil e mais.... Você pode acessar o texto de Clébson aqui: A semelhança é o vermelhor-terroso


Humusidade*

27/12/2019

Escrever trata-se de um alívio comunicativo, sendo pouco poética e mais pragmática. Começar pela metalinguagem é uma maneira de pedir licença, acusar as intenções, desfazer fronteiras, ser solene como um canto de galo que anuncia o sol. Escuto.   

Quando escutei pela primeira vez que para o vento não existe fronteiras consegui pela primeira vez também imaginar o fora do Estado. Mas começamos cedo demais a medir a terra. E a propriedade virou radical, fundamento. Passar pela burocracia da propriedade até se conseguir estar terra. É assim que o branco pensa. Acontece que já posso ir estando estar terra agora mesmo.  
Humusidade vem de húmus. Parece uma terra mascada, como chiclete, e devolvida úmida pra terra. Mascar a terra, temperar de saliva, de água, e cuspir de novo. Mascar terra.  

Erva da mulher. Minolta X-500. 35mm. 

Não tenho planta preferida. Mas essa tem um nome que chama Erva da mulher. Tão direta assim não se passa ilesa. A natureza parece ser vantagem para perspectivas imagéticas mais interessantes. Redefinir as narrativas pois assim se resgata memórias, não se deixa sumir. 

Qual aquela receita pra curar verruga? 

 
No livro A queda do céu, essa parte: “Noutros lugares, ao contrário, a floresta cresceu de novo, porque o ser da riqueza da terra, que chamamos Huture ou Ne roperi, trabalhou sem parar para replantá-la. É um trabalho incansável. Repovoou o solo calcinado com todas as suas árvores e plantas da roça - mandioca, bananeiras e pupunheiras rasa ai - para nossos ancestrais, seus filhos e netos poderem comer.” 

Fazer floresta crescer de novo é um plano pra próxima década. Se come.   

*Donna Haraway usa essa expressão na Conferência Os mil nome de Gaia, acesso pelo youtube. Ela fala sobre sermos húmus, como entendimento de que não nos apartemos da matéria que é a terra, que somos nós, que são os liquens, os bichos e que somos nós. Os nossos povos originários já falam isso desde sempre. Seria um grande passo a humanidade se sentir terra e tornar humusidade. 

Ser terra

25/12/2019

Enquanto acontece a procura da terra acontece também e igualmente a vida, a que nunca para de acontecer. Paralelamente se estende em mim as conexões feitas, inevitavelmente políticas, do que é terra. Depois de muito enfrentar uma profunda letargia de anos parada sem me dar uma chance de fôlego de voltar a escrever. Provavelmente resposta de algum medo de isolamento. Quão complexo é você mudar da cidade para a zona rural? Fazer no corpo o fugere urbem (numa expressão romantizada) mas que hoje me parece ser um dos caminhos a se pensar o futuro que já é irreversível. O que é o pé na roça? Estou pensando uma mostra e a feitura disso que chamam curadoria. E voltei a escrever. A ideia da volta. A Volta Grande do Xingu.    

Que esse ano atravessei o Atlântico pela primeira vez. Que vi muito o mar e olhei pouco pra ele, quase nada encarei da sua imensidão, desviei o olhar do mar. Aquela música do Gil que diz: "Como estar defronte de uma coisa e ficar". 

Alecrim. Minolta X-500. #35mm (fiz uma trouxa de alecrim de Minas, da casa de Gustavo e da sua mãe Marina, carreguei pendurada e nessa hora ventava)

Agir, que é usar as mãos. 

E uma coleção infinita de miudezas, de leituras, de extravasamento, de imagens, de detalhes, de coleção. 

O uso dos derrames. Justiça é ter seus direitos preservados. 

O Brasil

Mas a música mais bonita que escutei esse ano foi Gira das Ervas, de Luli e Lucina, presente da Maricota. Do signo de terra.  


Ser casa 

12/12/2019


"UM BURAQUINHO DÁGUA MATA MINHA SEDE, UMA PALMEIRA SÓ ME DÁ MINHA CASA. 

CASINHA QUE EU FIZ, PEQUENA - Ô GENTE! - PARA O SERENO REMOLHAR."   

Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas


Manual do Arquiteto Descalço - Johan van Lengen

Ser rural

27/11/2109



Para fazer da experiência um caminho de realidade e ficção através da escrita e do audiovisual começo esse blog com a intenção acanhada de narrar uma jornada de terra, já sabendo da incompletude que há nisso, pois há inúmeras terras, uma pluralidade de mundos e diversas formas de narrar.


Minutos antes de pegar a estrada já com as malas no carro e o coração aguado, Livinha me deu alguns presentes, entre eles a possibilidade de escutar o Tarot Motherpeace, seria um jeito de levar uma ideia, um pensamento pra viagem que duraria quatro dias, e também um jeito de levar Livinha comigo, amiga de anos, companheira de vida, de cerrado natal, de sotaque, de filmes, estudos e além. Nosso jogo foi feito debaixo do pé de romã, fruta essa que trouxe comigo e deixei secar as cascas, pra quando acontecer da garganta inflamar fazer gargarejo. E a garganta inflamou sim e o remédio já estava feito. Com os anos a gente se adianta. 



No jogo veio uma carta que chama Sacerdotisa de Ouros, o lindo desse tarot é a proximidade que ele nos coloca da terra e da sua fortaleza feminista. Na carta há uma mulher em posição de yoga, ela está em meio a natureza e cercada pela agricultura. É o nosso plano! O entendimento desse jogo me acompanha já nesses quase um ano que saí de Fortaleza em direção a Bahia. E aqui abro espaço para narrar o porquê dessa mudança.



Já muito nova um bicho me picou, estava sentada na sala de aula e tinha 10 anos, escutava minha professora Josiana. Ela tirava todas as coisas e objetos de sua bolsa para nos dizer e influenciar que não jogava lixo no chão. Ela dizia que jogava na bolsa e quando chegava em casa jogava no lixo. Mostrava todo lixo que acumulou na bolsa. Aquilo me impactou muito, primeiro por conta da curiosidade que era ver tudo o que ela carregava ali, ela foi tirando documentos, papéis, uma toalhinha, esmalte, balinhas, copo descartável usado e alguns pequenos lixos que não me vem a memória. Mas o impacto daquela ação eu chamo de picada de consciência ecológica. Ela me ensinou naquele dia, naquele momento… sobre o lixo, sobre a responsabilidade que é sujar o mundo. 

Hoje esse pequeno senso cresceu muito e se aprofundou também, virou sonho grande em companhia de Oskar: Reflorestar! Reflorestar até o rabo! Plantar comida sem agrotóxico. Ter casa no mato pra receber os amigos. Formar uma residência artística, trazer o audiovisual, pensar outros caminhos de realização. Ser rural! 



Há mais ou menos dois anos decidimos mudar do centro urbano para a zona rural, economizamos um dinheiro (seguidos de todos privilégios que há nisso) para comprar um sítio, uma pequena propriedade rural, nosso objetivo era (é) associar agricultura e reflorestamento. E a conjuntura geopolítica do Brasil e do mundo fazia nosso desejo crescer. O golpe no Brasil e ascensão de governo de ultradireita de Bolsonaro, abertamente contra as questões ambientais e da existência da vida, necropoder, acelerou nosso compromisso com a mudança. De alguma forma a vontade de fazer frente a 382 novos agrotóxicos liberados para a mesa brasileira; comer sem veneno; queimada da Amazônia e Cerrado; derramamento de petróleo na costa nordestina; bancada ruralista etc, veio associada a um estudo de soberania alimentar e autonomia perante ao sistema capitalista.


Oskar tem uma formação política ideológica muito enraizada de esquerda, foi filiado ao partido comunista alemão e traz consigo uma crítica (instaurada na ação) poderosa ao capital. A diferença que queríamos para nós dois cresceu quando tivemos a ideia de realizar um crowdfunding de reflorestamento, com um detalhe importante, não queríamos dinheiro dos amigos brasileiros interessados nessa ideia, pois nossa compreensão de mundo acontece também no entendimento da contra-colonização: “Na minha vida, fiz muito discurso político e falei com muito chefe político do mundo todo. É lá fora que temos que controlar o problema. Porque é o povo de lá que vem com dinheiro para investir aqui, para construir barragens, coisas grandes.” Davi Kopenawa em entrevista ao jornal El País. Então foi em euros que fizemos a vaquinha, utilizando do privilegio de nascença de Oskar, metade alemão, metade brasileiro, jogamos a responsabilidade para onde ela nunca deveria ter saído: a Europa. Se a Europa vive um estado de bem-estar-imutável é a custa exploração do Sul Global, dos processos de colonização, do extrativismo desenvolvimentista, que nunca pararam de acontecer. Fizemos essa campanha com intuito de arrecadar dinheiro para reflorestar 10 hectares de Mata Atlântica. Mudamos para Bahia para comprar essa terra devastada e a partir daí dar início a plantação de árvores nativas associadas a uma prática de agricultura sustentável. 


No entanto, num país que nunca realizou a reforma agrária, que criminaliza os movimentos rurais, que tem no latifúndio a medida da terra, nos revela o quão difícil é encontrar áreas menores para o nosso projeto de reflorestamento. Já faz quase um ano que estamos nessa busca e não me sai da cabeça a fatalidade que é a falta da reforma, da demarcação de terra dos povos originários e quilombolas, dos 500 anos de gula que assola desde a invasão. A jornada tem sido complexa, saudade imensa das amizades cearenses, o corpo ainda se acostumando com a lida no campo, a dificuldade de comprar uma terra titulada e toda certinha perante a legislação, as incontáveis vezes de hesitação perante os desejos... a realidade do sustento se impondo com toda força. 


Polly Di

[email protected]

0

 .